Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

A ovelhinha que veio para o jantar

Adorei esta história... é tão fofinha!!!

 

 

 

 

A ovelhinha que veio para o jantar

 

 

― Oh não! OUTRA VEZ sopa de legumes! ― queixou-se o lobo, que já era velhinho. ― Quem me dera ter uma ovelhinha aqui à mesa. Fazia já um belo ensopado de borrego!

Eis senão quando… TRUZ! TRUZ!

Quem batia à porta era uma linda ovelhinha!

― Posso entrar? ― perguntou ela.

― Claro, minha querida! A casa é tua! Vieste mesmo à hora do jantar ― disse o lobo que, para além de ser velhinho, também era muito matreiro…

A ovelhinha estava cheia de frio.

― BRRRR! BRRRR! ― fazia ela a tremer.

― Mas que azar o meu! ― sussurrou o lobo. ― Logo me calhou uma ovelhinha congelada! Não gosto de comida assim!...

Então, o lobo lembrou-se de pôr a ovelhinha ao pé da lareira para ela se aquecer e, todo apressado, foi procurar a sua receita preferida de ensopado de borrego.

Mnham mnham!... Já lhe crescia água na boca só de pensar no seu delicioso repasto.

Mas não era só o lobo que estava com fome. A barriga da ovelhinha também já estava a dar horas…

― Mas que azar o meu! ― pensou o lobo. ― Não posso comer uma ovelhinha toda esfomeada! Até me podia fazer mal ao estômago!

Então o lobo ofereceu à ovelhinha uma cenoura.

― Assim, já tenho borrego recheado!

A ovelhinha devorou a cenoura tão depressa que ficou com soluços.

― HIC, HIC, HIC! ― fazia ela sem parar.

― Ai, ai! Que azar o meu! ― lamentou-se o lobo. ― Quem é que come uma ovelhinha cheia de soluços? Até pode ser contagioso!

O problema é que o lobo não percebia nada de soluços. Como é que se acabava com eles?

― E se eu atirasse a ovelhinha ao ar?

― HIC!

Mas não resultou.

― E se eu a virasse ao contrário?

― HIC!

Mas não resultou.

 

― E se eu a abanasse de um lado para o outro?

Mas também não resultou.

Então o lobo pegou na ovelha ao colo e começou a dar-lhe palmadinhas nas costas com a sua pata enorme coberta de pêlos!

Os soluços da ovelhinha não tardaram a passar e ela adormeceu num instante, enroscada no pescoço do lobo.

 

O lobo, que já era velhinho, ficou muito embaraçado porque nunca tinha sido abraçado pelo seu futuro jantar. E como seria de esperar, a fome, afinal, já nem era tanta…

A ovelhinha ressonava baixinho encostada às orelhas do lobo.

― RRRROOONCHHH! RRRROOONCHHH! ― fazia ela.

― Que azar o meu! ― queixou-se o lobo. ― Como é que vou comer uma ovelha que está a ressonar?

O lobo sentou-se na cadeira de balouço ao pé da lareira, com a ovelhinha nos braços.

― Já nem me lembro da última vez que alguém me fez uns mimos! ― reconheceu o lobo.

Mas assim que o lobo começou a cheirar a ovelhinha, ficou deliciado com o seu perfume!

― OHHH! ― suspirou o lobo. ― Se eu a comesse depressa ela nem sequer dava por isso.

E quando o lobo se preparava para engolir a ovelhinha… ela acordou e deu-lhe um grande beijinho! CHUAC!

 

― NAÃOOO! ― gritou ele. ― Isso não vale! Eu sou um lobo mau e tu és um ensopado!

― Um enlatado? ― perguntou a ovelhinha a sorrir. E confessou: ― Eu sei lá o que é isso!

― Que é que eu faço à minha vida?! ― exclamou o lobo. ― Bom, vais mesmo ter de te ir embora!

Muito decidido, o lobo pôs a ovelhinha na rua, mas primeiro deu-lhe um agasalho.

― SOME-TE DAQUI!!! ― gritou. ― Se ficares, como-te e depois já não te podes arrepender.

E com um grande estrondo fechou a porta. BANG!

Lá fora, a noite era escura e fria. E a ovelhinha não parava de bater à porta.

― Oh, Loobo! Looobo? ― suplicava ela. ― Deixa-me entrar!

Mas o lobo, que já era velhinho, tapou as orelhas com as patas e pôs-se a cantar «LA, LA, LA, LA, LA, LA, LA!» até a ovelhinha se calar.

Finalmente, tudo estava em silêncio.

― Ainda bem que ela já se foi embora! ― suspirou o lobo aliviado. ― Aqui ela não estava em segurança. Um lobo velho e esfomeado como eu é sempre capaz do pior!

Mas pouco depois, o lobo começou a pensar na ovelhinha, sozinha e desamparada na escuridão da floresta.

― Talvez ela se perca…

― Talvez morra de frio….

― Talvez caia nas garras de um bicho…

― OH, NÃO! O QUE É QUE EU FUI FAZER? ― perguntou ele arrependido.

Sem querer perder tempo, o lobo pôs-se de pé e abriu a porta. Mas infelizmente não havia sinal da ovelhinha.

O lobo, que já era velhinho, correu aos berros pela floresta fora:

― Ovelhinha, ovelhinha, volta, não tenhas medo! Prometo que não te como!

 

Passado muito, muito tempo, o velho lobo, triste e encharcado, regressou sozinho à sua quinta. Estava mesmo desanimado.

Abriu a porta e, qual não foi o seu espanto, quando viu a ovelhinha ao pé da lareira!

― VOLTASTE! És mesmo tu? Não tens outro sítio para onde ir? ― perguntou o lobo muito eufórico.

E a ovelhinha abanou a cabeça, dizendo que não.

― Que… que… queres ficar aqui co… comigo? ― convidou o lobo a gaguejar.

A ovelhinha olhou para ele, olhos nos olhos.

― E tu prometes que não me comes? ― quis saber ela.

― NÃO! CLARO QUE NÃO! ― afirmou ele. Como é que eu podia comer uma ovelhinha que precisa de mim? Até podia ficar com o coração partido…

A ovelhinha sorriu e atirou-se para os braços do lobo, que já era velhinho.

― Estás com fome, enlatado? ― perguntou ele. ― Que tal uma sopinha de legumes?

 

 

Steve Smallman

A ovelhinha que veio para o jantar

Lisboa, Dinalivro, 2006

sinto-me:
publicado por incompreendida às 23:23
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